13 de dezembro de 2011

Religião e espiritualidade



Frei Betto

A  espiritualidade é, como a sexualidade, uma dimensão constitutiva do ser  humano. Essa potencialidade neurobiológica pode ou não ser cultivada. Uma  pessoa desprovida de espiritualidade prescinde da percepção da  profundência de sua subjetividade. Nela os desejos prevalecem sobre  os ideais.
Se Sócrates e  Descartes nos despertaram para a inteligência racional; Colleman, para a  emocional; foi a física e filósofa Danah Zohar que chamou a atenção para a  inteligência espiritual. Maria Corbi sugere que a espiritualidade se resume  em IDS: Interesse (por ela); Desapego (de si e dos bens finitos);  Silenciamento (concentrar-se para descentrar-se no Outro e nos outros). 
À primeira  vista, espiritualidade opõe-se à materialidade. E o espírito ao corpo. Esse  dualismo platônico está superado, tanto pela ciência quanto pela teologia.  Somos todos e tudo uma Unidade. Os mesmos 92 átomos encontrados em nosso  corpo são os “tijolos” que edificam o conjunto do Universo.
A  espiritualidade prescinde das religiões, pode ser vivida sem elas, e há  religiões desprovidas de espiritualidade, asfixiadas pelo peso do  doutrinarismo autoritário. Sócrates (470 a.C.-399 a.C.) e Sêneca (4 a.C.-65  d.C.) eram homens profundamente espiritualizados, “santos pagãos”, embora  destituídos de religião.
As religiões  surgiram no período neolítico, quando o ser humano, até então nômade e  coletor, fixou-se na atividade agrícola, tornando-se sedentário. Seu ponto  axial foi o século VII a.C. Nele nasceram e/ou viveram Buda (600), Lao-Tsé  (604) Zaratustra (660) e os profetas Jeremias e Daniel.
A religião,  como instituição, surge naquela época. Antes, predominava a cosmovisão  tribal, comunitária, voltada a aplacar a ira dos deuses e obter proteção  diante das catástrofes naturais, sem individuação do sujeito frente à  divindade. Só a partir do século VII a.C. o ser humano passa a ter  consciência de sua relação pessoal com Deus.
A religião  surge como forma de controle da sociedade agropastoril e seus grandes  relatos disciplinam o caos ético, ao mesmo tempo que interioriza o poder da  autoridade.
Hoje, o que  está em crise não é a espiritualidade. São as formas tradicionais de  religião. Nesse mundo secularizado, desencantado, os valores são  substituídos pelas ciências; o ser pelo ter; o ideal pelo desejo; o  altruísmo pelo consumismo. Assim, a religião reflui para a vida privada e os  locais de culto. E deixa de influir na vida social.
No  interior das próprias Igrejas cria-se a dicotomia: fiéis se distanciam da  doutrina e da moral oficiais, como é o caso do uso de preservativos por  católicos. Como nas relações de trabalho, ocorre uma flexibilização  institucional da crença. Ela se constitui num amálgama de propostas,  formando um mosaico esotérico.
A crise da  Cristandade, no Renascimento, não significou a crise do cristianismo. Da  mesma forma, a crise das religiões não pode ser confundida com a da  espiritualidade. Agora nos deparamos com uma espiritualidade pós-axial,  laica, pós-religiosa, centrada na autonomia do indivíduo.
O que  caracteriza essa espiritualidade pós-moderna é, de um lado, a busca, não do  outro, mas de si, da tranqüilidade espiritual, da paz do coração. Nesse  sentido, trata-se de uma espiritualidade egocêntrica, centrada no próprio  ego. De outro, uma espiritualidade política, voltada à promoção da justiça e  da paz, comprometida com a ética e a proteção do meio ambiente.  
Vale retomar  o esquema Corbi: hoje, uma espiritualidade evangélica deve ter clareza de  seus objetivos. O meu próprio bem-estar subjetivo ou também uma sociedade  fundada na justiça? Deve propiciar o desapego aos bens finitos, como  mercadorias, poder, dinheiro, fama, de modo a favorecer o cultivo dos bens  infinitos: amizade, solidariedade, compaixão. E, sobretudo, fundar-se no  silenciamento, na abertura dialógica, orante, a Deus; na atitude servidora  aos outros; na reverência devocional à natureza.

Frei Betto é escritor, autor de “Sinfonia  Universal – a cosmovisão de Teilhard de Chardin” (Ática), entre outros  livros.

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